terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Humanismo - Velho da horta

Gostaria de escrever um pouco sobre o humanismo (não sei por que) afinal, mundo caótico, não?

Homem vitruviano, Leonardo da vinci

O homem vitruviano é uma das mais famosas obras do renascimento, que simboliza uma característica bem marcante, o antropocentrismo.
Humanismo e renascimento andam de mãos dadas. Pois o primeiro, determina uma transição entre medieval e o segundo. Essa filosofia, baseia-se e um conjunto de ideais e princípios que valorizam as ações humanas e valores morais (respeito, justiça, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc). Para os humanistas, os seres humanos são os responsáveis pela criação e desenvolvimento destes valores. Desta forma, o pensamento humanista entra em contradição com o pensamento religioso que afirma que Deus é o criador destes valores.
Irei falar mais precisamente do humanismo literário, na qual destaca-se o Gil Vicente com sua obra 'O velho da horta'.
Basicamento, o Humanismo foi um movimento intelectual italiano do final do século XIII que irradiou-se para quase toda a Europa, isto porque, após a queda de Constantinopla em 1453, muitos intelectuais gregos (professores, religiosos e artistas) refugiaram-se na Itália e começaram a difundir uma nova visão de mundo, mais antropocêntrica, indo de encontro à visão teocêntrica medieval. Entre as principais ideias humanistas estavam:
  • retomada da cultura antiga, através do estudo e imitação dos poetas e filósofos greco-latinos;
  • revalorização da filosofia de Platão, especialmente no que diz respeito à distinção entre o amor espiritual e o carnal - neoplatonismo;
  • crítica à hierarquia medieval, o homem reivindicando para si uma posição de destaque no Universo - não aceitação passiva das imposições místicas difundidas na ideia de destino;
  • bifrontismo, coexistência de características medievais (feudalismo, teocentrismo) e renascentistas (mercantilismo, antropocentrismo, pragmatismo burguês).

GIL VICENTE E A FARSA: O VELHO DA HORTA







Um senhor de idade (velho), casado e pai de quatro filhas, tinha uma horta, na qual todo dia ficava olhando e esperando algum freguês. Em um belo dia, o velhote estava observando sua horta enquanto rezava ("Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso"), estava lá para trabalhar por que seu hortelão (preguiçoso) não estava lá para ajudá-lo, foi nesse momento, que entra na tenda, uma bela moça...

Pequeno trecho

"Velho — Senhora, benza-vos Deus, (Moça, seja abençoada)
Moça — Deus vos mantenha, senhor. (Deus o mantenha, senhor)(e com formol ainda kkkkk)
Velho — Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus. (Nossa, da onde a frôr de formusa veio? Do céu?)
Moça — Mas no chão. (Do chão mesmo) (Velho enxerido)
Velho — Pois damas se acharão que não são vosso sapato! (Nenhuma gatinha chega aos seu pés moça)
Moça — Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato! (Isso não importa e essas cantadas de pedreiro?)
Velho — Que buscais vós cá, donzela, senhora, meu coração? (O que veio fazer aqui, meu docinho? Meu coração, hã?)(piscadinha marota)
Moça — Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panela." (Vim na sua horta para comprar verduras para o almoço, velho doido).

Depois de longas cantadas do velho para moça, a mesma foi colher o cheiro verde e a cebolinha, cantando.
E depois que colheu o que precisava, retornou ao velho.


Pequeno trecho





"Moça: Eis aqui o que colhi; vede o que vos hei de dar. (Pronto, vê quanto é!)
Velho — Que me haveis vós de pagar, pois que me levais a mi? Oh coitado! Que
amor me tem entregado e em vosso poder me fino, como pássaro em mão dado de
um menino! (O que irá me pagar? Coitado de mim, você só precisa me entregar seu amor)
Moça — Senhor, com vossa mercê. (Senhor, por favor)
Velho — Por eu não ficar sem a vossa, queria de vós uma rosa. (Me dá uma rosa então, para eu não fica sem você)
Moça —Uma rosa? Para que? (Rosa?? Por que?)
Velho: Porque são colhidas de vossa mão, deixar-me-eis alguma vida, não
isente de paixão mas será consolação na partida. (Para me consolar sabe? Já que você irá partir)
Moça — Isso é por me deter, Ora tomai, e acabar! (Isso é para me torrar a paciência, ora, acabe logo com isso)
O velho então pegou na mão da moça e ela disse:
Jesus! E quereis brincar? Que galante e que prazer! (Jesus, esse velho quer tirar uma com a minha cara, pensa que é galante)
Velho — Já me deixais? Eu não vos esqueço mais e nem fico só comigo. Oh
martírios infernais! Não sei por que me matais, nem o que digo." (Já vai? Não me esquecerei de ti bombonzinho... Oh Inferno, por que faz isso comigo?)

Então, entra em cena o hortelão ou o parvo para chamar o velho, pois a sua esposa tinha feito a janta e o marido estava aidna na horta até tarde.
Eles discutem... Então a mulher bem com o rolo de macarrão atrás do marido e os dois traçam um diálogo.

"Mulher: Hui! Que sina desastrada! Fernandeanes, que é isto? (ME TRAINDO SEU FERNANDEANES?)
Velho — Oh pesar do anticristo. Oh velha destemperada! Vistes ora? (Oh dragão, mulher, sabe de alguma coisa?)
Mulher — E esta dama onde mora? Hui! Infeliz dos meus dias! Vinde jantar em má
hora: por que vos meter agora em musiquias? (Onde a sirigaita mora? Infeliz dos meus dias... Você veio conversar em um hora ruim)
Velho — Pelo corpo de São Roque, vai para o demo a gulosa! (Por São Roque, vai para o inferno sua velha assustadora)
Mulher – Quem vos pôs aí essa rosa? Má forca que vos enforque! (Para quem foi a rosa? Me diz seu assanhado! Que a forca te enforquem velho tarado)
Velho — Não maçar! Fareis bem de vos tornar porque estou tão sem sentido; não
cureis de me falar, que não se pode evitar ser perdido! (Me deixa... Vou tomar algo por que estou pertubado)
Mulher — Agora com ervas novas vos tornastes garanhão!... (Uhum... Agora quer ser garanhão com a horta?)
Velho — Não sei que é, nem que não, que hei de vir a fazer trovas. (Não sei, velha chata, mas irei fazer canções agora)
Mulher — Que peçonha! Havei, infeliz, vergonha ao cabo de sessenta anos, que
sondes vós carantonha. (Sua cobra, tem vergonha na cara, um velho de 70 anos cantando)
Velho — Amores de quem me sonha tantos danos! (Cantar para minha moça que me faz sonhar)
Mulher — Já vós estais em idade de mudardes os costumes. (Já tem idade para se ajeitar)
Velho — Pois que me pedis ciúmes, eu vo-los farei de verdade. (Já que tá com ciúmes, falarei a verdade)
Mulher — Olhai a peça! (Sei...)
Velho — Que o demo em nada me empeça, senão morrer de namorado. (Que nada me impeça, quero morrer apaixonado)
Mulher — Está a cair da tripeça e tem rosa na cabeça e embeiçado!... (Vai cair do cavalo, tem rosa na cabeça mas está todo acabado)
Velho — Deixar-me ser namorado, porque o sou muito em extremo! (Me deixa apaixonado, sua velha mexeriqueira, por que sou muito romântico)
Mulher — Mas vos tome inda o demo, se vos já não tem tomado! (Vai par ao inferno)
Velho — Dona torta, acertar por esta porta, Velha mal-aventurada! Saia, infeliz ,
desta horta! (Sai daqui sua velha enrrugada, saia da minha horta)
Mulher — Hui, meu Deus, que serei morta, ou espancada! (Ai que meda, vai me matar ou me espancar!)
Velho — Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais
homem as afaga, tanto mais são endiabradas!" (Esta velha é uma praga, quanto mais a gente da carinho, mas endiabradas são, eu hein...)"

O velho começa a cantar, lamentar praticamente, por que a moça foi embora... E ouvindo sua cantoria, entra um alcoviteira, Branca Gil, na horta do velho e propõe que ela conseguiria o amor da vida dele em troca de dinheiro. A alcoviteira faz uma ladainha a todos o santos e santas, na intenção de trazer a moça para o velho, mas no fundo, ela era uma farsante e só queria estorquir o velhinho.

"Alcoviteira — Sus! Nome de Jesus Cristo! Olhai-me pela cestinha. (Senhor, em nome de Jesus, olha minha macumba)
Velho —Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto. (Vai logo, empregada, que eu pago bem)
 

Vai-se a Alcoviteira, e fica o Velho tangendo e cantando a cantiga seguinte:
 

"Pues tengo razón, señora,
Razón es que me laa oiga!
Vem a Alcoviteira e diz o Velho
Venhais em boa hora, amiga!"


 Depois de levar todo o dinheiro do velho, a alcoviteira vai presa por um alcaide com quatro beleguins (Policia e seus soldados). E a moça, na qual o velho se apaixonou, se casou mais tarde com um rapaz.
No desfecho da história, o velho encontra uma mocinha em sua horta e ao ver tamanha tristeza, traça um diálogo com o velho.

Mocinha: Vedes aqui o dinheiro? Manda-me cá minha tia, que, assim como no outro
dia, lhe mandeis a couve e o cheiro. Está pasmado? ( Está vendo o dinheiro? Minha tia me mandou aqui para pegar o couve e o cheiro verde, como nos outros dias...Está triste?)
Velho — Mas estou desatinado. (Estou desolado...)
Mocinha — Estais doente, ou que haveis? (Está doente? O que houve?)
Velho — Ai! Não sei! Desconsolado, que nasci desventurado! (Ahh, não sei, estou desconsolado, nasci com azar)
Mocinha — Não choreis! Mais mal fadada vai aquela! (Não chore, pobre senhor, ela já foi castigada)
Velho — Quem?
Mocinha — Branca Gil.
Velho — Como?

Mocinha — Com cem açoites no lombo, uma carocha por capela, e atenção! Leva
tão bom coração, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe dão! E o triste do
pregão – porque dizia:
“Por mui grande alcoviteira e para sempre degredada”, vai tão desavergonhada,
como ia a feiticeira. E, quando estava, uma moça que passava na rua, para ir casar,
e a coitada que chegava a folia começava de cantar:
“uma moça tão formosa que vivia ali à Sé...” (Foi castigada com muita chicotada)
Velho — Oh coitado! A minha é! (Eita)
Mocinha — Agora, má hora e vossa! Vossa é a treva. Mas ela o noivo leva. Vai tão
leda, tão contente, uns cabelos como Eva; por certo que não se atreva toda a gente!
O Noivo, moço polido, não tirava os olhos dela, e ela dele. Oh que estrela! É ele um
par bem escolhido! (E a moça, ela casou-se, está de bem com a vida agora, com um jovem moreno, alto, bonito e sensual)
Velho — Ó roubado, da vaidade enganado, da vida e da fazenda! Ó velho, siso
enleado! Quem te meteu desastrado em tal contenda? Se os jovens amores, os mais
têm fins desastrados, que farão as cãs lançadas no conto dos amadores? Que
sentias, triste velho, em fim dos dias? Se a ti mesmo contemplaras, souberas que
não vias, e acertaras. Quero-me ir buscar a morte, pois que tanto mal busquei. Quatro filhas que
criei eu as pus em pobre sorte. Vou morrer. Elas hão de padecer, porque não lhe
deixo nada; da quantia riqueza e haver fui sem razão despender, mal gastada.


E assim termina a farsa 'O velho da horta' - O velho foi roubado, ficou falido, desolado por causa do amor, esperava apenas pela morte, enquanto deixava suas quatro filhas sem nada.





2 comentários:

  1. AI ai, eu ri muito!!! Sua "tradução" ficou muito engraçada!!! Parabéns!!! Tem outras?

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  2. Olá, Carol :D - Obrigada pelo comentário e pelo elogio :D
    kkkkkkkkkkkkk... Eu fiz apenas o do velho da horta mesmo, por que gosto muito dessa obra. Mas procurarei fazer outras que gosto ;)
    abraços!!

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